terça-feira, 21 de abril de 2009

Prô dia nascer feliz - Susana de Castro


Finalmente a crise da educação brasileira saiu do nicho jornalístico e ganhou a tela dos cinemas. O docuentário de João Jardim, "Pro dia nascer feliz – um filme sobre meninos e meninas que vivem a pressa de saber quem são" (2006) -- mostra ao telespectador que o universo escolar tem o mesmo apelo dramático do que, por exemplo, um dos outros temas preferidos dos docuentaristas brasileiros, a favela. O filme almeja fazer uma radiografia do ensino médio brasileiro. Quatro escolas de espaços geográficos distantes uma das outras são focadas no filme: uma escola pública de Manari, no sertão Pernambucano, cidade com menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do país; uma escola publica de Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro; um escola pública de uma cidade na periferia de São Paulo; e, por fim, uma escola particular de uma bairro classe média alta da cidade de São Paulo. O diretor escolheu retratar a situação do ensino médio no Brasil a partir do relato de alguns jovens dessas escolas. A sensação que o telespectador fica depois de ouvir esses relatos é a de que estamos em um beco sem saída. Se a função do ensino médio é a de preparar esses jovens, de idade média entre 14 e 17 anos, para ingressar em uma universidade pública ou conseguir um emprego bem remunerado, então podemos declarar de uma vez por todas que isso não passa de uma ilusão. De nada adianta propagar pelos quatro ventos que 97% das crianças em idade escolar freqüentam as escolas no Brasil, se não estamos atentos para a qualidade do ensino dado. Escolas destruídas, professores sem capacitação, alunos desmotivados essa é a situação real do ensino brasileiro. As estáticas, como a acima, só podem indicar que o governo brasileiro resolveu nivelar por baixo, aceitando qualquer situação em que haja alunos sentados e professores na frente como um situação ideal.
A jovem Valéria, aluna da escola pública em Manari, viaja todos o dias à noite para a cidade vizinha, pois em sua cidade não há uma escola que tenha ensino médio. Sensível, leitora de Vinícius e Drummond, demonstra enorme talento poético ao declamar suas poesias para a câmera. As chances de desenvolver seu talento são mínimas dadas as condições precárias do seu ensino. Em outra situação, ela certamente seria uma candidata a ingressar no ensino universitário. Em depoimento ao diretor do filme, uma das professoras desses alunos afirma que eles chegam desmotivados para estudar e que entre as meninas a única razão de vir a escola é a oportunidade de paquerar.Em uma escola pública de Duque de Caxias, Edenilson relata com orgulho seus problemas indisciplinares na escola para deleite dos colegas que o escutam. Em seguida, o diretor filma a reunião do conselho em que o destino desse garoto é discutido. Várias professoras afirmam que ele não passou na sua matéria, entretanto, com o argumento de que a repetição pode prejudicar mais ainda o desempenho dele, é acordado que ele passará de ano. O único ambiente em que o jovem parece integrado e feliz é na atividade extra classe de música afro. Independente do valor cultural que essa atividade certamente tem, fica-nos a sensação de que a esses jovens a única porta de entrada na sociedade é através das atividades lúdicas, como a música.
Quando o filme retrata a escola da periferia de São Paulo, o depoimento mais dramático é a da jovem professora de história, Clara. Vê-se, pela filmagem de sua aula, que ela é uma professora engajada em problematizar o conteúdo da matéria, em trazer ela para o cotidiano dos jovens. Além da aula, organiza na biblioteca da escola um fanzine com as poesias dos jovens e está sempre disposta a ouvir as suas discussões e perguntas sobre temas de seu interesse. Uma das que participam do encontro relata que antes de participar do fanzine só queria saber de dormir depois de chegar da escola. Ao descobrir a poesia, descobriu que podia canalizar sua tristeza para a literatura. Um ano depois, o diretor colhe o depoimento dessa aluna que já havia terminado a escola e trabalhava dobrando calças numa fábrica. Ela já não tinha mais o ambiente que lhe propiciava o estimulo para escrever e não escrevia mais poesias. Vê-se que um simples alento cultural pode ser muito para essa geração perdida. O diretor colhe também o depoimento da jovem professora de história em sua casa, em que justifica por que falta muito ao trabalho. Antes, a diretora da escola havia dito que precisa de um contingente extra de professores para cobrir a ausência dos professores e mesmo assim muitos dias os alunos voltam para casa sem terem tido uma aula sequer. Clara justifica suas faltas dizendo que muitas vezes não possui condições psicológicas de dar aula porque absorve muito dos problemas do alunos. Ela mesmo é obrigada a fazer uma vez por semana terapia.
A única escola em que ficamos com a sensação de que aí o ensino realmente funciona, como não poderia deixar de ser, é na escola particular de São Paulo. Aqui, vemos alunos realmente preocupados com o ensino, vemos as boas instalações do colégio. Dada a situação confortável em que vivem, esses jovens têm condições de não só dedicarem-se com afinco aos estudos e com isso ingressarem nas melhores universidades e nos cursos mais difíceis, quanto de possuir também preocupação social e existencial. Não são seres bitolados e alienados como acreditamos normalmente que seriam dada a classe social a que pertencem. Entres esses jovens há a consciência de que vivem numa bolha, apartados da realidade social do país, e muitos demonstram a preocupação em mudar essa situação. Além disso, as angústias existenciais que possuem, mostram o quanto a maturidade intelectual leva à maturidade emocional; em alguns depoimentos, os alunos falam da preocupação em saber quem são, a preocupação com a morte e a religião. Se todos os nossos alunos do ensino médio fossem como esses, certamente os altos índices de desemprego e violência entre os jovens diminuiriam. Essa me parece ser a mensagem do filme.
No final do docuentário, a câmera vai do alto passeando pelos condomínios de alto luxo da cidade de São Paulo, enquanto em off uma jovem relata como esfaqueou e matou sua colega de escola e, sob os risos dos outros colegas, justifica, sem remorso, o seu ato dizendo que a vitima mereceu e já que todo mundo morre mesmo, só havia antecipado o inevitável. Não teme a punição, pois sabe que como menor não ficará mais de três anos na prisão. Os outros colegas afirmam que roubam e assaltam depois da escola, pois afinal de contas todos no país roubam, inclusive os ricos.
É essa a lição que ensinamos para nossos jovens, que todos são ladrão no país e que quem é menor e mata não vai preso por muito tempo? Isso nos leva a pensar nos jovens que mataram a criança de seis anos no Rio de janeiro de forma brutal, arrastando o seu corpo pelas ruas da cidade. Será que no cálculo deles também estava essa fórmula, 'sou menor de idade e por isso não vou ficar muito tempo na prisão'? Tudo indica que pensem que assim como podem morrer a qualquer hora, também podem matar a qualquer hora; não têm nada a perder. A vida para esses jovens é a vida de cada dia, não há perspectiva de uma vida melhor.

Susana de Castro, filósofa, professora da UFRJ.Vice coordenadora do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF

Um comentário:

jojo disse...

Olá D. Susana, "caí" aqui na sua página em decorrência de algumas pesquisas que fazia na internet sobre idéias sociológicas, tendo em vista a ampliação do referencial teórico da minha monografia, tentativa esta de graduação no curso de Pedagogia da Universidade Federal da Bahia. Lendo teu texto e por lidar diretamente com Educação... nossa, sentia meu coração ficar pequenininho por ver que realmente a Educação é assunto secundário para nossos representantes políticos e muitas vezes, para as próprias escolas. Na verdade o que percebo é que essa passa a ser questão de Vida ou Morte para tantos e tantos alunos... E previsivelmente de Morte ( em todos os seus sentidos) para os "filhos deste solo" desprovidos de uma condição sócio-econômica e cultural legitimamente aceita por esta mesma escola que reproduz cruelmente nosso injusto sistema.
Parabésn pelo texto!! EMOCIONANTE!!!

Cordial abraço,
Joelma Gouveia
Salvador - Bahia